O direito ao delírio

Para que serva a Utopia?

A utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, pois quando ando dez passos o horizonte se distancia dez passos. Quanto mais eu a procure menos a encontrarei porque ela vai se distanciando a medida de que aproximo. É para isso que serve a utopia, para caminhar!

“Ainda que não possamos adivinhar o futuro, sim, temos ao menos o direito de imaginar como queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos; mas a imensa maioria da humanidade não tem mais do que o direito de ver, ouvir e calar”

O DIREITO AO DELÍRIO

Que tal se começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?

Que tal se delirarmos, um pouquinho?

Que tal se fixarmos os olhos mais além da infâmia, para adivinhar outro mundo possível?

O ar das ruas limpo de todo o veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.

E nas ruas, os carros saerão esmagados pelos cães.

As pessoas não mais dirigidas pelos carros, nem programadas pelo computador, nem compradas por supermercados, nem também assistidas pela TV.

A TV deixará de ser o membro mais importante da família e será tratada como um ferro de passar ou máquina de lavar roupa.

Será incorporado aos códigos penais o crime de estupidez para aqueles que cometem “viver para ter ou para ganhar”, ao invés de viver para viver e nada mais, assim como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.

Em nenhum país irão presos os jovens que se recusam a cumprir o serviço militar, senão aqueles que queiram servi-lo.

Ninguém viverá para trabalhar, mas todos nós trabalharemos para viver.

Os economistas não chamarão mais o nível de vida de nível de consumo e nem chamarão de qualidade de vida a quantidade de coisas acumuladas.

Os cozinheiros não mais acreditarão que as lagostas amam ser fervidas vivas.

Os historiadores não mais acreditarão que os países gostam de ser invadidos.

Os políticos não acreditarão que os pobres adoram comer promessas.

A solenidade deixará de acreditar que é uma virtude.

E ninguém, ninguém levará a sério alguém que não seja capaz de rir de si mesmo.

A morte e o dinheiro perderão seus poderes mágicos e nem por falecimento e nem por fortuna um canalha se tornará um virtuoso cavalheiro;

A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos;

Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá mais crianças de rua, as crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá mais crianças ricas;

A educação não será privilégio daqueles que podem pagá-la;

A polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la;

A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, serão novamente juntas de volta, bem grudadinhas, costas com costas;

Na Argentina, as “Loucas de la Plaza de Mayo” serão um exemplo de saúde mental porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória;

A Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das tábuas de Moisés e o sexto mandamento mandará festejar o corpo. A igreja também ditará outro mandamento que Deus havia esquecido: “Amarás a natureza da qual fazes parte”;

Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma;

Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles se desesperaram de tanto esperar e se perderam de tanto procurar;

Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os tenham vontade de beleza e vontade de justiça, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem se importarem nem um pouquinho com as fronteiras do mapa e ou do tempo,

Seremos imperfeitos porque a perfeição continuará sendo um chato privilégio dos Deuses;

E neste mundo trapalhão, seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última.”

Eduardo Galeano,  jornalista e escritor uruguaio, nascido em 03 de setembro de 1940, Montevideo no Uruguai.

Referências:

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