Pérolas antes do café da manhã.

Em uma experiência inédita, Joshua Bell, um dos mais famosos violinistas do Mundo, tocou incógnito durante 45 minutos, numa estação de metro de Washington, de manhã, em hora de ponta, despertando pouca ou nenhuma atenção. A iniciativa foi do jornal “Washington Post”, com a ideia de lançar um debate sobre arte, beleza e contextos.

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Um homem chegou em uma estação de metro em Washington DC.  Era 7:51 da manhã de uma sexta-feira, bem no meio do horário de pico/rush matinal. Ele começou a tocar violino; era uma fria manhã de Janeiro. Ele tocou 6 peças de Bach nos 43 minutos que se seguiram. Cerca de 1097 pessoas passaram pela estação, com suas preocupações, sua rotina.

Três minutos se passaram antes de alguma coisa acontecer.  Sessenta e três pessoas passaram, até que um homem de meia-idade percebeu que um músico estava tocando. Ele mudou seu caminhar, notou o músico, mas continuou andando, mas já era algo!

Meio minuto depois o violinista recebeu sua primeira gorjeta. Uma mulher arremessou o dinheiro na caixa e continuou a andar. Levou  cerca de 6 minutos até que alguém encostou-se na parede para ouvi-lo.

Quem prestou mais atenção foi um garoto de 3 anos de idade. Sua mãe que o trazia, o apressou, mas o garoto parou para olhar o violinista. Por fim, a mãe o empurrou e a criança continuou a andar, mas ainda buscando algumas vezes olhar o violinista. Essa ação se repetiu com outras crianças. Todos os pais, sem exceção, os forçaram a seguir andando.

Bell, ali na estação de metro, foi ostensivamente ignorado pela maioria, à excepção das crianças, que, inevitavelmente paravam para o escutar. Segundo o jornal, isto é um sinal de que todos nascemos com poesia e esta é depois, lentamente, sufocada dentro de todos nós.

Nos 43 minutos, apenas 7 pessoas pararam e acompanharam por pelo menos um minuto. Vinte e sete deram dinheiro, mas não se detiveram à escutá-lo e apreciá-lo.  Ele recebeu $32. Quando ele acabou de tocar, ninguém percebeu. Ninguém aplaudiu. Ele passou praticamente desapercebido, como um fantasma.

O violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele acabara de tocar umas das peças mais difíceis já compostas. Ninguém reparou também que ele tocava com um Stradivarius de 1713 – que vale 3,5 milhões de dólares! Três dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam 100 dólares.
Joshua Bell tocou incógnito na estação de metrô, que foi organizado pelo Washington Post como parte de um experimento social sobre percepção, gosto e prioridade das pessoas.

Veja o vídeo: Stop and hear the music – The Washington Post

“Se um grande músico, toca uma grande música, mas ninguém o ouve. Seria ele realmente bom?”

O sucedido motiva o debate foi este um caso de “pérolas a porcos”? É a beleza um fato objectivo que se pode medir ou tão-só uma opinião? Mark Leitahuse, diretor da Galeria Nacional de Arte, não surpreendeu-se: “A arte tem de estar em contexto”. E dá um exemplo: “Se tirarmos uma pintura famosa de um museu e a colocarmos num restaurante, ninguém a notará”. Para outros, como o escritor John Lane, a experiência indica a “perda da capacidade de se apreciar a beleza”. O escritor disse ao “Washington Post” que isto não significa que “as pessoas não tenham a capacidade de compreender a beleza, mas sim que ela deixou de ser relevante”.

O cabeçalho de uma discussão sobre esse tema era:

“Em um ambiente comum em uma hora inapropriada, nós percebemos a beleza? Nós paramos para apreciá-la? Nós reconhecemos o talento em um contexto inesperado? ”

Uma conclusão possível desse experimento pode ser:

“Se não temos um momento para para e assistir… Quantas outras coisas nós estamos perdendo?”

O que Kant disse está certo. Não podemos olhar para o que aconteceu neste experimento e pegar um julgamento sobre todas a sofisticação das pessoas ou sua habilidade de apreciar a beleza.

“Mas e sobre a sua capacidade de apreciar a vida?”

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Referências:

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