O tempo de um embarque, de um olhar.

Quarta-feira. Dezoito horas e mais um tanto de minutos.
Eu espremido num vagão qualquer de um trem da linha vermelha, vindo da Barra Funda.
Parada. A estação é Santa Cecília.
As pessoas se espremem. Mais. Mais ainda.
A porta fecha e abre algumas vezes.
Na penúltima vez vejo um olhar conhecido.
Olha lá, uma amiga!
O que faço? Grito “oi”?
Não. Ao menos não consegui isso.
Eu estava desligado? Não.
Talvez dizer um “oi” não seja a única forma de se comunicar. Não é. Óbvio!
A porta fechou.
Bloqueou o que eu estava olhando.
Abriu de novo! Agora braços e cabeças disputavam o espaço do olhar.
Ainda a vi mais uma vez.
Será que ela me viu? Não sei, mas também não precisa ter um olhar no outro olhar.
Estava lá uma amiga.
A amizade existe mesmo que não se olhem. Afinal, amizade não é sentimento dos olhos, é do coração.
A porta fechou.
O trem partiu.

 

 — Claudio Lente

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